- A única coisa da qual sinto-me na obrigação de aconselhá-la é que eu estou indo na busca por aquilo que desejo - olhei diretamente no fundo de seus olhos castanhos - e você deveria fazer o mesmo. Seu sonho sempre foi fazer teatro, então de que adianta concluir a faculdade de direito inteiramente por vontade de seus pais? - agarrei-lhe as mãos - lembre-se que nunca é tarde para mudarmos nosso caminho. Quem sabe se dramatizando você sentirá menos a minha falta?sábado, 16 de outubro de 2010
Conversa de amigo
- A única coisa da qual sinto-me na obrigação de aconselhá-la é que eu estou indo na busca por aquilo que desejo - olhei diretamente no fundo de seus olhos castanhos - e você deveria fazer o mesmo. Seu sonho sempre foi fazer teatro, então de que adianta concluir a faculdade de direito inteiramente por vontade de seus pais? - agarrei-lhe as mãos - lembre-se que nunca é tarde para mudarmos nosso caminho. Quem sabe se dramatizando você sentirá menos a minha falta?sábado, 2 de outubro de 2010
Observação intervalar
Estou em intervalo de aula e resolvi permanecer em sala, até a chegada do professor. Tem um grupo de amigas sentadas, bem à minha frente, que conversam e riem sobre seus problemas familiares. Camila, fala de sua prima, que tem problemas de dicção e troca o “r” pelo “s”, dando alguns exemplos de situações e ri ao lembrar-se de tanta coisa que já presenciou. Camila é uma garota alegre e gosta de conversar, nasceu com uma doença que causou má formação de membros superiores e inferiores, causando-lhes dificuldades para andar e manusear objetos. Mesmo assim, ela parece superar esse problema com certa facilidade, mas me vem à mente o quanto foi difícil para ela se acostumar com a idéia de ser “diferente”, como ela se adaptou às situações. Não deve ter sido nada fácil nem engraçado quanto à conversa que ela tem com as amigas.
Em outro canto da sala, Raquel, Felipe e Luciana discutem sobre o preconceito que Raquel está enfrentando por ser lésbica. Ela diz que está difícil aguentar a rejeição das pessoas, das quais ela achava que mais teria apoio, como amigos e familiares. Os dois colegas tentam consolá-la com um: “calma, isso vai passar”, e ela firmemente pergunta “quando?”. Está triste e afirma que as pessoas não entendem e não estão preparadas para aceitar a felicidade dos outros, como eles são. Os amigos concordam e tentam erguer sua autoestima, com brincadeiras e lembranças de acontecimentos passados e engraçados. De certa forma, ela sente-se confortada por eles.
O grupo de amigas em minha frente continua empolgado na conversa. Agora, mais uma juntou-se a elas, foi Carol quem chegou e está falando sobre o professor de história que, frequentemente, sorteia brindes em suas aulas e ela nunca tem a sorte de ganhar nada, diz que seu “santo é fraco”. Já Manu, fala que sempre teve muita sorte e desde pequena ganha quase tudo que concorre. Isso foi um gancho para os assuntos da infância delas e a mesma Manu, tão cheia de sorte, começa, tristemente, a falar que sempre foi muito sozinha, nunca tinha ninguém para brincar, já que sua única companhia era seu irmão mais velho, que tinha muitos amigos e mal vivia em casa, e sua mãe que trabalhava praticamente o dia todo, além de controlar seus horários. Carol fala que até pode não ter tanta sorte com os brindes, mas é feliz com a infância que teve, gozando de certa liberdade e muitas amigas em sua casa para brincar. Começa a lembrar das várias brincadeiras de criança e isso faz Manu refletir sobre sua sorte: “será maior ou menor que a da minha amiga? Para que ganhei tantos brinquedos se nunca tinha ninguém para partilhar suas alegrias? É tudo muito complicado”, prefere não pensar muito nisso e mudar de assunto.
Felipe e Luciana, antes em um clima meio tenso, agora riem e escutam a amiga Raquel falar sobre sua paixão, sua felicidade e a sorte de estar namorando há 10 meses com a pessoa que ela mais ama e que tanto admira, que tanto lhe dar forças para enfrentar o que está passando. Os amigos sentem-se felizes por ela e a abraçam.
No grupo, Érica está em dúvida e enlouquecendo com a escolha da roupa que irá usar na festa de sua cunhada e diz estar desesperada, pois não consegue achar um sapato que combine com seu vestido e já não sabe mais o que fazer. As amigas tentam ajudá-la, dando-lhes sugestões, mas ela não se conforma com nenhuma e verifica que, além de estar em dúvida com a escolha do sapato, nem sabe mais se realmente irá usar aquele vestido que planejava. Cessam-se as conversas. O professor chegou e hoje não tem sorteio, é chocolate para todo mundo da sala.
Afinal, quem tem mais sorte? Quem enfrenta o maior drama? Quem é mais feliz? Realmente tem dias que a paisagem de fora parece ser melhor. Num mundo onde tantos prezam falar para se expressar, há aqueles que observam para aprender e entender, imaginando a vida de quem passa sem pretensão de saber a “verdade”. Quem observa o outro, acaba aprendendo muito de si.
sábado, 3 de outubro de 2009
O Elogio

Paty perguntou para onde a mulher estava indo. Foi respondida com um simples “nem sei, para onde Deus quiser me levar”. Paty só tinha seu emprego, nada mais lhe prendia àquele lugar, emprego que já estava prestes a perder. Disse para si mesma que voltaria para os tios, e de lá poria em prática todos os planos que havia feito durante a faculdade: do intercâmbio à publicação de um livro. Sentiu a senhora soltar seu braço e dar-lhe um tapinha encorajador no ombro. Paty correu em direção ao seu carro usado e recentemente adquirido o qual se encontrava uns sete metros mais adiante. Jogou tudo o que trazia nas mãos em cima do banco traseiro, baixou o vidro do motorista e acenou para a velha que a essa altura já nem mais se encontrava naquele local.domingo, 31 de maio de 2009
Castelos de areia
Ana, muito bem disposta, acordou cedo nesse sábado quente e ensolarado de Janeiro, o que não é de se espantar para alguém que mora nos trópicos. Agora, sentada e sentindo a suave brisa, passavam por sua cabeça as lembranças da época em que vinha com o pai para aquela mesma praia. Chegavam a passar o dia inteiro debaixo daquele sol, fazendo castelos de areia.
Respingos da água salgada atingiam seu rosto e rapidamente secavam com o vento que soprava agora mais intensamente sobre sua pele recoberta por filtro solar que, desde a infância, seu pai tanto insistia para que a filha jamais deixasse de usar. Imaginou o que ele não diria se visse seu anjinho – era assim como ele costumava chamá-la - com a clara pele desprotegida sob os intensos raios daquele astro, ainda mais nesses tempos de aquecimento global.
Esticou o braço e com uma das mãos passou a modelar o monte de areia em sua frente. As ondas, já mais fracas, chegavam até os seus pés. Ana sorria e continuava a elevar as mais lindas torres do seu castelo. Ficaria conhecida entre a realeza como a princesa do castelo mais bonito e que ela mesma o havia construído. Uma ponte interligava as alas leste e oeste. Foi então que subitamente uma onda mais forte invadiu o castelo. A princesa Ana ficou atônita, não sabendo como reagir frente tal situação. Seu reino inteiro estava sendo invadido por uma tsunami e os seus soldados de elmos dourados pareciam nada diante do desastre natural.
Indignada, percebeu que não adiantava construir seu palácio sem antes observar as condições do terreno. Afastou-se uns 2 metros para longe da água e tornou a construir a base do que seria seu novo reino. Muitos súditos chegavam para auxiliá-la, afinal, Ana sempre fora uma boa princesa. Novos soldados participavam dos treinamentos nos desertos de areia fina que circundavam o império, precisavam estar mais bem preparados para os muitos perigos que p
udessem surgir e ameaçar a integridade da realeza e dos súditos. Dessa vez, aprendendo com a experiência anterior, Ana deixou as bases do castelo bem firmes e só então elevou as quatro torres principais. A construção já ganhava forma e Ana caprichava em cada contorno. Foi então que uma chuva repentina encharcou os salões de seu castelo ainda nem terminado. Agora já mais preparada, levantou-se e arrastou para mais perto de sua construção algumas palhas de coqueiro caídas, recobrindo-a. Pôde, assim, amenizar os estragos que a grande tempestade poderia lhe ter causado.
sábado, 16 de maio de 2009
O que seria do amarelo se todos gostassem de azul?
Completa escuridão. As blusas amarelas se entreolhavam dentro do obscuro guarda-roupa de Mariana, tentando fitar, através da minúscula fissura entre a porta e as dobradiças, o que ocorria na porção exterior do armário. A penumbra embaçava a visão daquelas que, curiosamente, se esticavam para mais próximo da fenda, se enroscando umas nas outras e, em tentativas frustradas, acabavam por se amarrotar.